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  • quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

    EROS


    autor: Ricardo Monteiro

    Michelangelo Antonioni, Wong Kar-wai e Steven Soderbergh: três diretores consagrados, nascidos em três diferentes continentes. Três histórias independentes, livremente desenhadas em torno de um só tema, o erotismo, em um só filme, Eros. Tudo isso além da trilha sonora sul-americana, assinada pelo - almodóvarizado? - Caetano Veloso. Convenhamos: nomes fortes e sexo, jogada comercial maior no hay.

    Antonioni se comporta literalmente como o hors concours que é. Do alto de seus 93 anos recém completados, o italiano não precisa mais de brilhantismo – ou mesmo de real qualidade – para ser visto. E elogiado. Os cinéfilos de plantão se esforçam para reconhecer e interpretar, em Il filo pericoloso delle cose, os takes elegantes, a bela fotografia e a linguagem hermética que trouxeram fama ao diretor; consideram a cena em que uma taça de vinho desliza sobre o chão brilhante, poética. Em contrapartida, os que nunca viram nada de Antonioni – e, conseqüentemente, não estão contaminados pela inevitável “vontade de elogiar” dos experimentados – consideram a pretensa não linearidade da narrativa tempo-espacial banal e sem pé nem cabeça; ruim, no final das contas. Por maior que atente ao sacrilégio, melhor ficar com os últimos.Soderbergh, que assinou o pipocão Doze homens e outro segredo, não vai além das expectativas e realiza a mais acessível das três histórias. Equilibrium, rodado quase todo em preto-e-branco, conta com as caras e bocas de Robert Downey Jr. para narrar, de forma engraçadinha, a visita de um homem atormentado a seu terapeuta, uma figura estranha que voyeriza pela janela enquanto o paciente sofre as agruras de um sonho recorrente. Nem bom nem ruim, até arranca algumas risadas, mas frustra qualquer pretensa tentativa de alusão ao erotismo ou à sexualidade. The hand, o trabalho do aclamado chinês Kar-wai, vale por si só todo o filme. Melhor, mereceria para si todo um filme.



    A mais hermética das três histórias, é a única que consegue realmente criar um ambiente tenso, sexual, como prometia a sinopse geral. A história de um costureiro, que nutre um desejo – na maior parte do tempo – platônico por uma prostituta de luxo na Hong Kong dos anos 50, deixa hipnotiza toda a platéia, vibrando com os planos inusitados que mostram, com uma suavidade misturada com força, a beleza cruel da decadência da messalina vivida pela ótima Gong Li. Aqui finalmente se encontram o peso tentado por Antonioni e a angústia que se pretendia em Equilibrium.Eros segue uma inusitada progressão. Parte do obsoletismo do italiano, passando pela história rasa do norte americano, e culmina na sutileza e eficiência do oriental.

    É... Se vista com os olhos certos, não tão inusitada.

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