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  • terça-feira, 6 de março de 2007

    O Melhor quadro para uma bunda


    por Diogo Cunha

    É mesmo uma coisa das mais bacaninhas: minha primeira crítica no jornal do Cinerama pode ser lida por quem participou do filme.

    O Cheiro do Ralo, meus caros, lança-se como expressão do novo cinema independente brasileiro. Lembro de ter lido que o diretor Heitor Dhalia assumiu a influência dos independentes norte-americanos, os bons filhos de Sundance.

    O indie movie brasileiro - segura os cabelos aí meu rapaz, indie aqui é só piada por associação - começa bem, hitchcockiando no clichê que passa pro lado do original: põe-se bem pertinho de uma bunda muito da boa.

    E como aquela câmera gosta daquela bunda! Por pouco ela não rebola, e vai que saía bem. O roteiro segue então pela vida de um antiquário (Selton Melo) amargo e rabugento que só tem olhos, dois, pras duas graças rechonchudas da garçonete de um pé sujo onde lancha.

    Mais um olho pra mirar o traseiro aparece em certo momento da história, só que este é de vidro. Comprado de um dos necessitados que vão ao escritório do protagonista, representa o momento culminante em que o antiquário perde o bom uso da razão. Aí o humor do filme fica ainda melhor.

    Nos seus devaneios alucinados o personagem cria doutrinariamente uma mistureba cosmológica que envolve a já mencionada bunda, o olho, seu pai, o céu, o inferno e o ralo. Aí está o ralo.

    Porque pior do que o fedor moforento das velharias que compra é o cheiro do ralo do banheiro do seu escritório. Você não o sente, óbvio, mas em sua obstinação doentia, Lourenço - dá-se logo o nome que já basta de procurar sinônimo - não o deixará se esquecer dele.

    Já ia eu me enveredando por um recurso bem baixo da crítica cinematográfica: contar a história, tão somente. Vamos lá mudando o rumo.

    A fotografia de o Cheiro do Ralo além de bela cai-lhe perfeitamente. Ali entre os cinzas e tons de marrom o ambiente tedioso e industrial marca a narrativa. Pode ficar a impressão de que a lanchonete, o escritório e a casa de Lourenço ficam todos dentro do mesmo galpão. Ora, o orçamento do filme é bem mixuruquinha, mas digamos que a vida insossa do protagonista permite esse recurso estilístico.

    Talvez não permita tanto a montagem que abusa da repetição de planos gerais externos não muito diferentes organizados num ritmo pouco variado. Uma marquinha de pessoalidade: fosse na hora dos cortes finais ou ainda no roteiro, se tivessem decidido por tirar a cena final, eu ficava feliz. Só não explico a razão para angariar sua simpatia não contando como acaba o filme.

    A menção honrosa fica para o tom contido e soturno que Selton Melo dá a Lourenço - que, aliás, não tem nome no livro que inspirou o filme, assim como todos os outros personagens. Bastante diferente do registro humorístico dos dois ou três Chicós que o ator fez no cinema e na TV, as risadas ficam por conta do sarcasmo dissoluto, da inversão de expectativa e do bizarro das situações.

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