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  • domingo, 4 de março de 2007

    Um convite a se abaixar


    por Caroline Gomes

    Em seu primeiro filme, Nina (2004), Heitor Dhalia baseou-se em um livro de Fiódor Dostoiévski. Considerada pelo próprio co-roteirista e diretor “um comentário sobre o romance”, a bamba adaptação não foi muito apreciada pela crítica. Desta vez, uma proposta muito menos pretensiosa fundamenta O Cheiro do Ralo (2006). Embasado no romance homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli, cujo traço deu alma a “Nina”, a mais nova obra do diretor passeia nas entrelinhas do humor negro e da ironia para despir uma crítica social das típicas nuances de demagogice – o que é quase sempre feito de forma bem-sucedida.


    Lourenço, que divide com seu criador o nome, é comerciante e compra objetos usados. Está a um mês de se casar e vive uma vida confortável, mas não luxuosa. Tudo aparentemente muda quando o ralo do banheiro de seu escritório entope, deixando o ambiente impraticável. Esse ordinário acontecimento parece ser o estopim para uma série de decisões drásticas tomadas pelo protagonista, que fica crescentemente irritadiço e intolerante.


    O rompimento do noivado, a descoberta de uma calipígia garçonete e as aquisições cada vez mais excêntricas aparentam ser reflexo desse novo Lourenço. Com o passar dos 112 minutos, no entanto, percebemos na denúncia simplória de um dos desesperados visitantes do seu escritório uma verdade maior: que o fedor que vem do ralo não é pior e nem menos familiar ao das entranhas do próprio personagem principal. Se sua profissão cobrava-lhe frieza e objetividade de modo a deixar para trás o valor emocional incutido em cada peça e assim obter negociações mais lucrativas, Lourenço acaba tornando esse processo seu modus vivendi.


    E se essa obsessão pode dar ao espectador a deixa para recriminar o protagonista, acaba desistindo quando percebe que, antagonicamente, tudo que ele mais quer é também construir uma memória afetiva para si, mesmo que através dos objetos comprados por ele – o olho de vidro e a perna mecânica que ele atribui a um pai que nunca conheceu. O dinheiro aí, para olhos mais atentos (com trocadilho, por favor) e que não se contentam com o corriqueiro e frouxo discurso anti-capitalista, mostra-se apenas mais uma moeda de troca como todas as outras que negociamos ao longo da vida, nas nossas relações diárias.


    Além do enredo instigante, “O cheiro do ralo” é também uma obra de acertos, como a fotografia genial – a penumbra, que, por vezes, nos força a ajoelhar pra aspirar a desagradável fragrância, e a dinâmica estrutura de quadrinhos – que já vinha de “Nina”. Somado a isso, Selton Mello incorpora o personagem do livro original perfeitamente, preservando todo o seu azedume, mesquinhez e extravagância – seja na sua paranóia com a fetidez que agora habita seu escritório, seja na sua falta de comedimento ao oferecer dinheiro para que a garçonete dê uma abaixadinha. O ator consegue encarnar o sarcástico personagem.


    Talvez essa comicidade seja mais um instrumento para perceber que o ralo nada mais é que canal para o nosso próprio esgoto. Só falta a coragem pra se dobrar e cheirar.

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