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  • sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

    Last days


    autora: Anna Virginia


    A metáfora entra em cena com a sutileza de um acorde grunge. Com pá em mãos e alguns demônios na cabeça para exorcizar, Blake, um músico introspectivo e catedrático em grunge rock vivido por Michael Pitt, começa a cavar o seu túmulo. Murmurando como um "cão-arrependido-com-suas-orelhas-tão-fartas-com-seu-osso-roído-e-o-rabo-entre-as-patas", como faz questão de ressaltar &ndash uma, duas, quarenta e oito vezes.

    À primeira vista, não há dúvida: você já viu esse filme antes. Last Days, o mais recente trabalho de Gus Van Sant, já nasceu destinado a conviver com a eterna questão de ser ou não ser uma biografia com requintes autorais de Kurt Cobain, líder do Nirvana encontrado morto em sua casa em idos 1994. Não é, insiste o cineasta. E com razão. É claro &ndash e loiro - que toda a balela quanto às semelhanças compartilhadas entre Blake e Kurt não serem intencionais é um argumento que não tem a menor chance de ser levado a sério por qualquer um que fite os olhos em Pitt - que reflete cada fio de cabelo do lost boy de Seattle à perfeição. Xerox garantida ou seu dinheiro de volta.

    No entanto, a última coisa que se pode alegar sobre o filme é que em algum momento ele se candidate a solucionar um crime ou esconjurar quaisquer fantasmas que ainda assombrem os órfãos do movimento grunge. Muito pelo contrário. Fiel ao estilo que amadureceu ao longo dos dois filmes que antecedem essa trilogia, Gerry e Elefant, o diretor volta a adotar um tom elíptico e deixa o tempo todo claro que não faz a menor questão de ser claro para sua platéia.

    Com isso, sobram planos-seqüência que, à moda dos trabalhos anteriores do cineasta, podem ser, ao mesmo tempo, infinitamente admiráveis e admiravelmente infinitos. Além do mais, especialmente nos filmes mais recentes de Van Sant, é preciso ter em mente que, para quem o vê, o menos importante é manter a expectativa de termos um filme linear e preciso, ainda que o resultado final seja indistinguível de um quadro expressionista ou um pote de ervilhas.

    Em todo o caso, a verdade é que o diretor investe pesado em uma sucessão de acontecimentos que provavelmente seriam de absoluta irrelevância em qualquer best-seller que tivesse a intenção de desvendar o Código de Cobain. Durante vários minutos, nada acontece. No tempo restante, assistir Blake preparar sua tigela de cereais pode assumir proporções épicas. Nada ou muito pouco dos excessos que carimbam com sexo e drogas o clichê do rock and roll é explicitado na película, que pode muito bem optar por impor à namorada-problema do músico um papel menos expressivo do que um par de irmãos beatos que vêm à casa onde o grupo de Blake está abrigada para pregar os ensinamentos de sua igreja.


    Assim, dizendo tudo sem contar nada, Gus Van Sant explora fragmentos da vida e da morte de uma lenda do rock com clareza similar àquela que diz respeito às circunstâncias que ainda hoje rondam a queda do paraíso grunge de Kurt Cobain. Ou seja: rigorosamente nenhuma. Impossível, por exemplo, saber se a narrativa - or something like it, já que a construção fílmica pouco linear do diretor dificilmente nos permite tal classificação - apresentada pelo cineasta toma horas, dias ou até mesmo meses para alcançar o seu trágico ponto final. No final das contas, o filme sequer responde se o pseudo-Cobain teria cometido suicídio ou se ele teria, quem sabe, apenas voltado para casa, como todos os grandes astros de rock que se recusam a ter uma morte menos barulhenta que suas vidas.

    É bem verdade que não se deve tomar Last Days como um self-service de significados, tornando-se prato cheio para uns tantos espectadores enxergarem as metáforas mais estapafúrdias que o diretor certamente quis desenhar nas entrelinhas da obra. Mas bobagem ainda maior seria obrigar o cineasta a traduzir seu troiano para um público que insista em só digerir grego. Talvez Gus Van Sant tenha resolvido dar um puxão de orelha na juventude cínica que, aos berros com a Venus in Furs do Velvet Underground, parece desembaraçada com sua falta de escrúpulos. Talvez leve às últimas conseqüências sua visão quanto ao peso esmagador da fama, que resultada num Blake completamente fechado em um mundo em torno de si, fugindo ao encontro de qualquer situação que o obrigue a interagir com outras personagens &ndash e, de tabela, com o próprio espectador.

    A única certeza, porém, é que aqueles que deixarem em casa qualquer pretensão em transformar seu ingresso em mais uma peça do quebra-cabeça que foi Kurt Cobain irá topar com um filme onde o que se vê, trocadilhos à parte, é um cineasta chegando ao seu nirvana quanto ao punho experimentalista com o qual conduz seu filme.

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    quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

    Jules e Jim


    autor: Bruno Boghossian


    Tu m’a dit « je t’aime »
    Je t’ai dit « attend »
    J’allais dire « prend moi »
    Tu m’a dit « vas-t’en »

    Jules e Jim (1962) pode ser visto como um fragmento da filmografia de François Truffaut, uma autêntica obra de um autêntico autor da nouvelle vague. E a palavra “autor” não é usado levianamente: toda a obra do diretor apresenta uma marca autoral, freqüentemente relacionada a movimentos de inovação cinematográfica. O termo é fruto da chamada “política dos autores”, teorizada pela revista Cahiers du Cinéma, na década de 1950 na França.

    Baseado no romance homônimo de Henri-Pierre Roché, Jules e Jim é apenas uma das provas da habilidade de Truffaut como mais do que um diretor, mas exatamente como auteur. Narrativa, mise-en-scène, montagem e fotografia magistrais construíram uma verdadeira obra da arte cinematográfica, baseada em uma história formatada de maneira fundamentalmente convencional.
    De fato, a narrativa, apesar de uma cronologia linear, é arquitetada perfeitamente na direção e na edição. A própria narração em off, sempre acelerada, não é puramente explicativa ou semelhante às narrativas comuns em outros filmes e romances. O diretor cria uma narrativa desconcertante não só pelo tema, mas também pela valorização de diálogos banais, da linguagem cotidiana, da narrativa rápida e da montagem inovadora: todas marcas da nouvelle vague em geral.


    Visto no século XXI, Jules e Jim pode deixar de traduzir a temática não exatamente polêmica, mas que certamente levantava diversos questionamentos de ordem política, social e sexual. Ambientado antes, durante e depois da Primeira Guerra Mundial, mas produzido na década de 1960, o filme também quebrava as regras do “fazer cinema”, a base da vanguarda cinematográfica da época.

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    EROS


    autor: Ricardo Monteiro

    Michelangelo Antonioni, Wong Kar-wai e Steven Soderbergh: três diretores consagrados, nascidos em três diferentes continentes. Três histórias independentes, livremente desenhadas em torno de um só tema, o erotismo, em um só filme, Eros. Tudo isso além da trilha sonora sul-americana, assinada pelo - almodóvarizado? - Caetano Veloso. Convenhamos: nomes fortes e sexo, jogada comercial maior no hay.

    Antonioni se comporta literalmente como o hors concours que é. Do alto de seus 93 anos recém completados, o italiano não precisa mais de brilhantismo – ou mesmo de real qualidade – para ser visto. E elogiado. Os cinéfilos de plantão se esforçam para reconhecer e interpretar, em Il filo pericoloso delle cose, os takes elegantes, a bela fotografia e a linguagem hermética que trouxeram fama ao diretor; consideram a cena em que uma taça de vinho desliza sobre o chão brilhante, poética. Em contrapartida, os que nunca viram nada de Antonioni – e, conseqüentemente, não estão contaminados pela inevitável “vontade de elogiar” dos experimentados – consideram a pretensa não linearidade da narrativa tempo-espacial banal e sem pé nem cabeça; ruim, no final das contas. Por maior que atente ao sacrilégio, melhor ficar com os últimos.Soderbergh, que assinou o pipocão Doze homens e outro segredo, não vai além das expectativas e realiza a mais acessível das três histórias. Equilibrium, rodado quase todo em preto-e-branco, conta com as caras e bocas de Robert Downey Jr. para narrar, de forma engraçadinha, a visita de um homem atormentado a seu terapeuta, uma figura estranha que voyeriza pela janela enquanto o paciente sofre as agruras de um sonho recorrente. Nem bom nem ruim, até arranca algumas risadas, mas frustra qualquer pretensa tentativa de alusão ao erotismo ou à sexualidade. The hand, o trabalho do aclamado chinês Kar-wai, vale por si só todo o filme. Melhor, mereceria para si todo um filme.



    A mais hermética das três histórias, é a única que consegue realmente criar um ambiente tenso, sexual, como prometia a sinopse geral. A história de um costureiro, que nutre um desejo – na maior parte do tempo – platônico por uma prostituta de luxo na Hong Kong dos anos 50, deixa hipnotiza toda a platéia, vibrando com os planos inusitados que mostram, com uma suavidade misturada com força, a beleza cruel da decadência da messalina vivida pela ótima Gong Li. Aqui finalmente se encontram o peso tentado por Antonioni e a angústia que se pretendia em Equilibrium.Eros segue uma inusitada progressão. Parte do obsoletismo do italiano, passando pela história rasa do norte americano, e culmina na sutileza e eficiência do oriental.

    É... Se vista com os olhos certos, não tão inusitada.

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    segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

    Amor à Flor da Pele


    autora: Amanda Meirinho

    Dois vizinhos, dois casais, dois quartos separados por uma fina parede em uma cidade imensa e populosa. Duas palavras, dois olhares, duas traições e um amor silencioso. O farfalhar dos vestidos, o jantar igual de todas as noites, a música sempre pesada e a fotografia intimista: Hua yang nian hua é um filme de pares e detalhes.

    Códigos ancestrais de etiqueta, honra e silêncio dominam a moderna Hong Kong de meados dos anos 60. Os vestidos, sempre elegantíssimos e com o mesmo corte da secretária executiva desfilam ao lado dos ternos de verão do jovem jornalista, distanciados por um pequeno corredor e uma aliança na mão esquerda. Dos seus cônjuges, apenas vê-se as costas. Ouvem-se suas vozes difusas, longínquas, perdidos em desculpas esfarrapadas e atrasos inaceitáveis. Ninguém pode saber que há algo errado, porém. A esposa de um e o esposo da outra; de repente, se vêem abandonados.


    Solidão expressa em lábios cerrados, olhares intensos sempre abaixados, conversas veladas e curtas, pensamentos obscuros: como uma dança no escuro, uma estória de sentimentos sem nome é desenrolada. Quem ama quem? Não há respostas além da quietude absurda da metrópole agitada.

    Erotismo e contenção, desejo e precaução. Qualquer palavra pode destruir sua reputação.
    Nenhum erro é passível de perdão.

    Não há liberdade para os sentimentos na estrita sociedade de Hong Kong. Conflitos silenciosos, escondidos, personagens que se cruzam na fila do làmen, a música lenta marcando seus passos, o jantar no restaurante mais elegante da cidade. Apenas meros detalhes. Apenas toda a paixão

    Cada minuto de filme é precioso. É único. Nas poucas falas, transborda emoção. Em cada contato fugaz, sangra. Um espetáculo para os olhos mais atentos, com atuações discretas, figurino impecável e direção magistral. Com um enredo conciso e bem definido, também surpreende a beleza inusitada de sua fotografia de cores escuras e grandes sombras. Simplesmente um deleite para apreciadores do tradicional, silencioso e bem-acabado cinema oriental.

    Ps: Unfght... acho que tá bom. Afinal, quase não se ouve um pio do casal o filme inteiro!



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    sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

    começo

    Aqui começa o blog do Cinerama.